quarta-feira, 16 de junho de 2010

O Caso do Siri Esmagado

O inspetor Marinho mordeu com força o seu cachimbo. Aquele era, sem dúvida, o caso mais misterioso que já encontrara em sua carreira. O Caso do Siri Esmagado.
-Vamos recapitular – disse o inspetor para seu assistente Matinhos.
- Vamos! – disse o Matinhos, saltando da cadeira.
- Senta, Matinhos. Vamos recapitular aqui mesmo.
- Desculpa. O senhor deve me achar meio burro.
- Burro só, não, Matinhos. Burro, néscio, estulto, ignaro e cabeçudo. Inepto e desatilado. Tapado, estúpido, asnático e canhoteiro. Quer os reservas?
- Não precisa.
- Vamos recapitular. Local do crime: uma casa no meio dos cômoros aqui de Cação Podre, a quilômetros de qualquer outra casa e a seiscentos metros do mar. Vítima: uma viúva rica e excêntrica que há anos renunciou à civilização e vivia sozinha na casa, recusando-se a receber seus parentes.
- Com exceção do garoto do armazém que levava o rancho uma vez por semana.
- O garoto do armazém não era parente da viúva, Matinhos. Quando quiser um palpite seu, eu peço.
- Sim, senhor.
- E quando eu pedir um palpite seu, é melhor sair de perto, Matinhos.
- Por quê?
- Porque é sinal de que eu enlouqueci e sou capaz de tudo.
- Certo.
- A morta não recebeu qualquer visita. Não havia pegadas nem sinais de veículo na areia em volta da casa. Só o rastro de um siri. E, sob o corpo da morta, um siri esmagado e um pequeno guarda-chuva quebrado.
- Guarda-sol.
- O único herdeiro da viúva tem a fama de ser um cientista louco. Vive fazendo experiências com animais. Forçou uma galinha a se alimentar só com ioiôs. Deu tudo certo, só que a galinha começou a botar sempre o mesmo ovo. Ele tem um álibi perfeito e... O que foi que você disse?
- Não era um guarda-chuvinha. Era um guarda-solzinho.
- Telefone para Porto Alegre! Mande prender o sobrinho. Examine o pé da morta e veja se não tem uma picada de siri. Que sejam examinadas as garras do siri. Se uma delas não tiver veneno o bastante para derrubar um batalhão de viúvas, meu nome não é inspetor Marinho.

Como se deu o crime? E como o inspetor Marinho o descobriu? Desistiu, leitor? Então leia a solução a seguir, clicando e passando o mouse de cima para baixo.

O sobrinho louco confessou tudo. Passara sete anos treinando um siri a atravessar qualquer distância atrás de pé de velha e a morder o primeiro que encontrasse. Um dia soltou o siri na praia, apontado na direção da casa da tia. O siri levou três dias para chegar na casa e morreria sob o sol se não fosse pelo pequeno guarda-sol montado nas suas costas pelo engenhoso assassino. Que só não contava que a velha cairia logo em cima do siri. E com a mente privilegiada do inspetor Marinho, claro.

Luis Fernando Veríssimo. Você é o inspetor Marinho (III),
In Zoeira. Porto Alegre, L&PM, 1987.

Um comentário:

Anônimo disse...

Opa, cara moro em BH e gostaria que se possível você me recomendasse um lugar bacana para comprar quadrinhos.
Tipo " Walking Dead" e "Y - O último homem".

Meu e-mail é alagraff@gmail.com

Abraços.